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É preciso estar atento e forte: a má notícia é que as coisas mudam. Calma, a boa notícia é que as coisas mudam.
No meio disso tudo, eu escrevo...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Bossa confusa do amanhã

Amanhã
há de ser
há de ser, eu não sei
Mas amanhã será
ah, isso eu sei
amanhã será
amanhã

Amanhã de manhã
há de raiar a alegria
e se feliz não for, menina
há de ser outro dia

E do lado de cá
tem gente
e do lado de lá
também
Tá sujeito ao mundo, menina
todo mundo que é alguém

E se eu parar
o mundo não para junto
e mesmo que acabe o mundo
acabando ele estará, sem parar
Será que você me entende?

Será que nessa gente tanta
toca aquela banda bamba
Será que essa gente sente?
Será que nessa gente tanta
há gente o suficiente
em cada um?

Ó, não sei, mas ó

Ó moça, olha só
pra quê tanta pressa
tanta troça, tanta prosa
em vão

Deixa pra lá
essa fossa
toda a bossa
essa volta tanta
em volta do seu labirinto
Sabe
não precisa essa pressa
tanta reza
tanta testa enrugada em dor
e espera

Vem pra cá
que aqui tem
mais coisa assim
feliz, em paz
afinal o que te trás
aqui
assim
Deixa ser e seja
mais com calma
com mais alma


Dessas coisas piegas, clichês

Abre o caminho
seu corpo nu
escorregadio
Recolhe as partes de mim
o meu porto e meu navio
Reconhece em mim,
no meu olhar
a semente do meu ser
e faz dela reflexo
no teu mar
Desprender do passado
pro futuro começar
Amar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Mata atlântica

dos meus rochedos
eu quase salto
no vazio de você
cairia e não retornaria
alma nenhuma,
coisa alguma viva
nem o pó, nem o pó

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Jack Kerouac sacando minha espiritualidade

"[...] Ele comeu o queijo e o pão e tomou o vinho com gosto e gratidão.  Lembrei-me do verso no Sutra do Diamante que diz: 'Pratique a caridade sem ter em mente nenhuma concepção a respeito da caridade, porque caridade, apesar de tudo , não passa de uma palavra'. Era muito devoto naquele tempo e praticava minha devoção religiosa quase à perfeição. Mas, com o tempo, acabei ficando um pouco hipócrita em relação à minha pregação, além de me sentir um pouco cansado e cético. Porque agora estou tão velho e tão neutro... Mas naquele tempo eu realmente acreditava na caridade e na gentileza e na humildade e no zelo e na tranquilidade neutra e na sabedoria e no êxtase, e acreditava ser um antigo bhikku com roupas modernas vagando pelo mundo (geralmente percorrendo o imenso arco traingular de NOva York até a Cidade do México e até São Francisco) para fazer girar a roda do Verdadeiro Significado, ou Darma, e conquistar méritos próprios para me tnrasformar em um futuro Buda (Despertado) e um futuro Herói no Paraíso. Ainda não tinha conhecido Japhy Ryder, isso aconteceria na semana seguinte, nem tinha ouvido falar de nada parecido com "Vagabundos do Darma" apesar de naquele tempo eu ser um perfeito Vagabundo do Darma e me considerar um andarilho religioso. [...]"

- Os vagabundos iluminados, Jack Kerouac, pág.8

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A gente, juntinho

Saudade de rolar nos seus lençóis, e olha que ainda é quarta-feira. Tô a fim de sentir o seu cheiro, me debruçar no seu peito nu e ver o seu sorriso tão lindo e tão seu despontando.Tô querendo tomar banho no seu chuveiro, com direito a água e corpo quente, com você jogando a toalha sobre os meus ombros, pode? Te ligo amanhã, na sexta a gente se vê. Tô querendo um pouco mais de você.

Parada

Era uma lanchonete de beira de estrada. Era inverno, e o dia estava começando a escurecer. De repente entrou um rapaz pela porta de vidro. Vinte e poucos anos, usando um casaco azul-escuro aberto, blusa lisa e calças jeans, nada demais. Era bonito, até, mas nada que chamasse a atenção. Foi direto para o caixa, comprou um maço de cigarros. Parou no balcão e começou a abrir o maço, encarando as placas onde se lia o que a lanchonete oferecia.
- Ei, você. Não é permitido fumar aqui.
- Tranquilo.
- Vai querer alguma coisa?
- Não, obrigado.
Saiu pela porta guardando o maço no bolso de trás e tirando um isqueiro. Ficou do lado de fora, fumando por alguns minutos. No início andou em círculos algumas vezes, depois sentou-se. Os olhos na rodovia, nos ônibus estacionados, nas pessoas que passavam pela porta de vidro. Pouco tempo depois entrou no ônibus, que o tempo da parada tinha acabado.
E é só isso. Um rapaz na parada da viagem. Mais um entre vários outros rapazes, e moças, e crianças, e senhoras, e velhos, que param na beira da estrada por vinte minutos ou menos, e eu fico aqui pensando as histórias que cada um teria pra contar. Fico imaginando quanto pensamento surge e se dissipa ali, debaixo da luz branca ofuscante; quantas dúvidas e quantos medos, quais sonhos e que saudades brotam na cabeça dos que se olham no espelho do banheiro das lanchonetes. Penso em quantos encontros ocorrem e não se completam na porta de vidro. Quantas almas perambulam nas estradas, quantas estrelas sorriem e morrem no céu que as pessoas olham pelas janelas dos ônibus e carros e caminhões, ou a pé ou de bicicleta. Quantas paisagens os olhos humanos já viram... Imagino quantos são os filhos abandonados, quantos quilômetros se fizeram de história, as memórias que são combustível dos viajantes. Fico imaginando quantos amores são esquecidos na poeira da estrada, quanta gente com a esperança renovada. Fico pensando em quanta vida cabe dentro de uma lanchonete de beira de estrada.

Da felicidade nas pequenas coisas

Comer bolo de chocolate na cozinha de quem você gosta após uma transa gostosa e um banho quente: é disso que são feitas as pequenas felicidades.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sobre tapetes, amor e cebolas

Chorava, mas chorava por dentro, porque não lhe restavam lágrimas pra escorrer.
Pedro estava ali, em pé na cozinha apertada, cortando cebolas enquanto via o dia virando noite no céu. Estava cortando cebolas, e não caía uma lágrima sequer. Já não havia mais lágrimas, havia gastado todas, uma a uma; uma pra cada minuto de felicidade que tivera ao lado da mulher que amava tanto tanto, uma para cada minuto de silêncio que fizera desde a sua morte.
Se pudesse chorar, chorava porque estava a remexer no armário em busca de um comprovante e acabou encontrando o ingresso do primeiro filme que viu com Letícia no cinema, no dia em que se conheceram. Na verdade, que não viu.
Ele estava à caminho da sala de cinema, quando viu o ingresso no chão. Pegou, deu uma olhada em volta. Uma mulher estava poucos passos à frente, observando os cartazes. Com licença moça, é seu? A moça olhou para trás com seus olhos enormes e castanhos, e Pedro nunca viu coisa mais bonita desde então. Desde a boina vermelha cobrindo parte dos cabelos pretos até a sapatilha colorida, era 1,68 de encanto. Encarou o bilhete e balançou a cabeça negativamente. É que achei no chão, e você estava perto, pensei que fosse seu... Não, na verdade eu acabei de sair desse filme. É mesmo? Eu estou indo assistir agora! A moça olhou com engraçados olhos de dó: é uma porcaria. Bem, talvez alguém tenha recebido esse aviso à tempo e desistido de assistir, disse Pedro apontando com a cabeça para o ingresso. A moça riu. Provavelmente! Pedro ficou satisfeito por tê-la entretido, e então se achou ridículo por isso. Mas era bem verdade que queria estender a conversa para ter mais alguns minutos com ela. Tinha um cheiro maravilhoso, provavelmente do perfume, e Pedro pensou em perguntar o nome. Não, que pergunta besta que seria! E se bobear ela vai achar que sou gay. Não achando nada que coubesse dizer, pensou que era melhor se apresentar logo. Sou Pedro. Letícia. Quando ela já se virava para ir embora, Pedro soltou rapidamente, como a última respirada: não quer me acompanhar? Já que o filme não valerá a pena, seria bom conversar com alguém, e esse ingresso acaba tendo um fim mais digno. Letícia achou engraçado e acabou aceitando. O nome do filme nem vem ao caso, nem mesmo assistiram. Conversaram durante o filme inteiro, riram muito, saíram antes para não serem expulsos, riram disso também, prolongaram num bar e trocaram telefones. Depois viriam muitos outros filmes, muitas conversas, muitos beijos e sexo e brigas e reconciliações e viagens e mais brigas e mais sexo e muito amor.
O travesseiro ainda tinha o cheiro do perfume de Letícia. A nostalgia que aquele aroma despertava variava de nuance ao longo do tempo, de acordo com o humor e a dor de Pedro.
Nos primeiros dias, era um conforto, como se ela ainda estivesse ali, como se a sua ausência não fosse eterna. Se era cedo da manhã, Pedro acordava sentindo aquele cheiro, e era como se Letícia tivesse ido na padaria comprar pão e logo estaria de volta. Se era noite, ela estava no cinema com as amigas. Se era madrugada, Pedro fazia esforço para pensar que ela atrasou, que esticou a saída num barzinho qualquer. Não, não um qualquer, que fica muito irreal. No Bar do Tito, que a cerveja era barata e o próprio Tito oferecia um conhaque por conta da casa para Letícia, que gostava tanto de aquecer o corpo e a alma.
Mas os dias foram passando, e a ficha foi caindo: ela não volta. Não volta não Pedro, para de teatro que o único a quem engana é você mesmo. Daí o cheiro passou a zombar dele, todo dia quando acordava, toda noite quando deitava. Queria jogar fora, mas pensou em todos os argumentos para não fazê-lo. Não podia simplesmente ir parar no lixo, seria um desperdício. Pensou em passá-lo adiante para algum amigo, mas que homem fica em paz enquanto outro dorme satisfeito sentindo o cheiro de sua mulher? Contudo, não podia doá-lo à alguém na rua, porque... bem, se não pudesse imaginá-lo sendo usado por um amigo, quem dirá um desconhecido! É, estava sem opções, teria que manter aquela lembrança ali, afinal.
Depois a convivência com o travesseiro ficou mais fácil, não porque Pedro aceitara melhor a perda, mas porque o tempo, como faz com todas as coisas,fez com que o perfume dissipasse pouco a pouco.
Aí Pedro pensou no quão voláteis são a coisas, e no quanto isso era frustrante e ridículo.
Ridículo era também que Pedro estivesse ali, picando cebolas para cozinhar um omelete às cinco da tarde, porque fazia duas horas que acordara, e tinha gastado todo esse tempo olhando para a ponta do tapete da sala. Acordou ao lado do maldito travesseiro, faminto, e no caminho da cozinha tropeçou no tapete indiano que Letícia tinha escolhido dois anos atrás, em uma venda de quintal que obrigara Pedro a ir. Quando tropeçou, fez virar a ponta, onde se viam alguns dos vários tracinhos azuis.
Letícia tinha mania de fazer uma marca com caneta do lado contrário do tapete sempre que tinham uma transa boa. Sabe como? Daquelas que começam na porta do apartamento. Ou que começam na cama, mas terminam na sala. Daquelas de orgasmos memoráveis. A primeira vez que desenhou um tracinho no tapete, Pedro estranhou. Nossa vida sexual é ótima, até parece que vai marcar só umas vezes. Não, marcaria várias. E justamente porque o sexo era bom e constante, Letícia dizia que era importante marcar, que era pra não perder o hábito, pra manter viva a mágica. Uma vez Pedro broxou, ficou sem graça, disse que isso nunca acontecia, Letícia finjiu acreditar, Pedro jurava que era verdade, e ela encerrou o assunto e pediu que ele deitasse em seu colo. Pedro reclamou que ela só estava tentando o fazer sentir melhor, Letícia riu. Não está funcinando? Até que estava. Conversaram intimidades e trocaram confidências, e acabou que foi a melhor broxada da vida de Pedro. Nesse dia, Letícia fez uma marca especial no tapete, no que Pedro protestou. Está zombando de mim! Vai marcar isso aí pra lembrar que eu sou broxa? Você não é broxa, você é o amor da minha vida. Você broxou, e isso ainda vai ser motivo de riso, deixe de ser bobo. Estava certa: Pedro hoje olha para a marca, e ri-se. Como não ria fazia muitos meses, desde que Letícia passou a ser um restinho de perfume no travesseiro, umas marcas de caneta azul no tapete, um ingresso de cinema, e tantas lembranças mais que faziam Letícia viver no dia-a-dia de Pedro. Nas lágrimas de Pedro. Nas cebolas de Pedro. No coração de Pedro. E Letícia não morreu nunca mais para ele.